CONTOS

Quem conta um conto...
Não é assim que se começa?

Contei um conto e ponto [.]
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Novidade: Acompanhe eventos literários e leia diversos contos curtos e inéditos AQUI, na minha coluna Eventos&Contos do Brasil Personalidades!
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SUMÁRIO

O que você encontrará nesta seção, por ordem:

  1. A LENDA DE KAUANE (conto selecionado pela Estronho)
  2. A DAMA DOS CORVOS (conto selecionado pela Estronho)
  3. REVELAÇÕES DE PÁSCOA (conto selecionado pela Estronho)
  4. TRIBUTO A EL-REI (conto selecionado pela Estronho)
  5. AMANTE SUI GENERIS (conto selecionado pela RHS)
  6. A CONDENAÇÃO DE LILITH (4º Lugar da Seleção Contos Fantásticos)
  7. [aguarde por mais novidades]


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Vou deixar apenas um gostinho de A LENDA DE KAUANE
para você se animar a adquirir o livro da IRA,
da coletânea VII Demônios - Editora Estronho!

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08/8/11

A LENDA DE KAUANE
Trechos do conto original de
Amanda Reznor

"          - ... em nome do pai, do filho e do espírito santo – Amém!

O padre finalizou a frase com os lábios trêmulos. No céu encardido de laranja, algumas araras ruflaram em direção à mata virgem, chamando a atenção dos vinte excursionistas para quem o padre havia ministrado a missa – as copas frondosas estavam sendo bulidas por um vento imaginário e, quando a vibração das folhas aumentou a ponto de chacoalhar os imponentes troncos, as pessoas ficaram absortas demais com o fenômeno para reparar que o padre havia desaparecido.
O que se deu em seguida foi tão rápido que, enquanto os olhos arregalados fitavam desesperadamente o corpo que se despedaçava ao seu lado, atônitos, a sinapse da dor morria junto aos nervos estirados, esquecida pelo seu próprio dono, tamanho era o horror que a visão de barro, sangue e órgãos lhe proporcionava, dominando o pensamento que atordoaria seus últimos segundos de vida: Vingança.

           Porém não era um desejo de se vingar pelo que estava acontecendo, não. A vingança era o que estava acontecendo. Os fios sanguíneos empolando nas veias rompidas gritavam, com toda a força, que eles estavam sendo punidos. Por que razão?como? e por quem? seriam poucas das muitas dúvidas que nem chegariam a transladar por aquelas mentes."

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E a lenda continua, revelando o início de uma poderosa maldição e mostrando que, no fundo, todos os males provêm de corações mirrados pela mesquinhez e sadismo...


Aguarde o lançamento deste volume e dos outros pecados da coletânea VII Demônios!

Entre em contato com Amanda Reznor pelos links norodapé do blog. =)


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Vou deixar apenas um gostinho deA DAMA DOS CORVOS
para você se animar a adquirir o livro SteamPink,
escrito só por mulheres! - Editora Estronho!

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01/6/11

A DAMA DOS CORVOS
Trechos INÉDITOS do conto original de
Amanda Reznor


Belle Époque¹. Nunca se viveu tão intensamente o progresso na Cidade da Luz: Paris querida, teu palco exibe nas ruas os mais belos Cadillac; tua terra, os céus e os mares evolam o vapor das engrenagens; o chauí de apitos mecânicos ecoa pelas esquinas da inovação e dos bons modos; e os arredores da boêmia estão eternizados pelo embalo do cancã, da cinemática visual e dos contornos da art noveau, tudo bem telegrafado de boca-em-boca, oh, Paris! Em meio disso, eu, Anatole Zola, me ocupo de tuas noites teatrais, teus bailes de máscara e coquetismo, do mais requintado cabaret e de suas elétricas bailarinas...

Só não me confundam com Émile Zona ou com Anatole France. Sou Anatole Zona, não tão famoso, mas ainda assim diferente; sou precursor de um invento ainda mal sucedido, e também da sociedade dos Le Grand Vampires, um ramo secreto de homens distintos do círculo social parisiense que se prestava à criação, fantástica ou apenas prática, do maquinal, arquitetural ou cultural, mas sempre tocada pelo tom sombrio do gótico.
Eu, como sempre fui – portador de boas ideias – nunca tive, por outro lado, conhecimento físico e quântico para a realização da coisa, muitas vezes mais complexa na realidade que em meu pensamento fantasioso; destarte foi que tentei, com a ajuda dos ilustres colegas, criar a primeira máquina do tempo, aperfeiçoando a teoria por nós ainda pouco explorada de que haveria uma fusão denominada tempo-espaço e que, se conseguíssemos realizar uma cisão, esta transpor-nos-ia a um futuro ou passado não muito distantes.
Após infrutíferas tentativas de construir tal arroubo científico, algo de muito fabuloso ocorreu, fornecendo-me o brio necessário para levar o projeto adiante; no que detinha em sua representação de êxito, porém, a situação não deixou de encenar sua tragédia, e uma cicatriz que pode ainda ser explorada a fundo em minha consciência.
Como citara eu dantes, muito estava envolto nas atividades sociais correntes, e não havia noite que faltasse eu aos bailes do Fantastique, o cabaré mais frequentado de toda a França. Poderei eu descrever-vos a beleza incólume dos ornamentos que inspiraram as futuras construções suntuosas do luxo? As mil luzes, exibição exemplar da modernidade energética, piscando sincronicamente num letreiro vermelho pulsante, tal qual coração arfante, refletem-se feito lágrimas escorridas pelas paredes sinuosas do templo de shows; após a entrada, mergulha-se num salão entre circo e tenda cigana, abusado de tons rubros, pardos e dourados, com filetes de luz dançando por cem cordões espalhados circularmente, de um ponto fixado no centro da abóbada que se estica ao perímetro de toda uma arcada em baixo relevo (arcos de gesso esculpido que forram as paredes internas); abaixo das luzes, espalham-se mesas e cadeiras, cobertas as primeiras do mais puro linho bordado e já providas de talheres e vidraçaria cristalizada de glacial requinte.
Exposto a este foyer pomposo, o palco se ergue como perna elástica sobre as cabeças maravilhadas, e, ao soerguer do manto, a tábua envernizada espelha os tantos balanços sobre os quais vêm descendo as saltatrices de maillot, penachos, brilho e glamour. Atrás delas, a vedete faz sua entrada, tropeando a toada da cancana num farfalhar de saiotes e rendas. 


[1] Belle Époque: período de expansão cultural francesa que coincide com a Era Vitoriana de 1871 a 1901 e que, como na Inglaterra, envolve a consolidação da Revolução Industrial e o surgimento de novas invenções.

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Alguns dos trechos acima foram eliminados do conto que será publicado, o qual, finalizado em dez páginas, trará acontecimentos inusitados envolvendo a origem do gramofone e outras invenções, num misto de realizações proféticas, bruxaria, traição e vapor!

Aguarde o lançamento deste e de outros contos do gênero Steampunk em 
SteamPink & Deus ex machina!

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Vou deixar apenas um gostinho de REVELAÇÕES DE PÁSCOA
para você se animar a adquirir o livro Inconfidência Mineira,
da coletânea Histórias Fantásticas do Brasil - Editora Estronho!

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26/5/11

REVELAÇÕES DE PÁSCOA 
Trechos do conto original de
Amanda Reznor

“Talvez um dia se saibam
as verdades todas, puras.
Mas já serão coisas velhas,
muito do tempo passado...

Cecília Meireles em
O Romanceiro da Inconfidência
– Trechos do Romance XLIV

“Temiam acaso que aquele crânio oco de novo se reanimasse, reunindo-se ao tronco esquartejado e desse outra vez o sinal da revolta ao povo oprimido?”
Trechos de Bernardo Guimarães em
A Cabeça de Tiradentes


TERÇA-FEIRA, 16 DE ABRIL DE 2019

“... Helena foi levada por um impulso inebriante: despindo-se da blusinha de algodão e da calça jeans, pulou a grade da passarela e afundou na água fresca do Tejo, aliviada por não estar tão gélida quanto aparentava...”


QUARTA-FEIRA, 17 DE ABRIL DE 2019

“... virou bruscamente o corpo ao ouvir gritos desesperados que subiam do centro da reunião, arregalando os olhos ao conferir a cena grotesca que se desenrolava: um homem havia acabado de decapitar uma mulher, num apoio de madeira no meio do palanque; ao redor desta, outras nove ou dez pessoas estavam amarradas pelas mãos e pernas, com o corpo esticado, e recebiam violentos golpes de um bastão nos joelhos e nos pulsos, intercalando os gritos de horror com o estralar dos ossos partidos...”


QUINTA-FEIRA, 18 DE ABRIL DE 2019

“... adormeceu tranquilamente, como se as visões macabras que tivera na manhã anterior houvessem abandonado sua mente na fronteira de Lisboa.
Roncando, nem moça e nem velha percebe o rangido da janela da cozinha, ou os passos furtivos pela casa, ou...”

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O que você acha que irá acontecer até a Páscoa de 2019, que coincidentemente cairá no dia 21, data de nascimento de Tiradentes? Prepare seu pulso, pois, dia após dia, a revelação de Páscoa de Helena promete ser de arrepiar!

Aguarde o lançamento deste volume e de outros momentos históricos das
Histórias Fantásticas do Brasil!


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Vou deixar apenas um gostinho de TRIBUTO A "EL-REI"
para você se animar a adquirir o livro Belzebu - Gula,
da coletânea VII Demônios - Editora Estronho!




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[aqui, trechos inéditos do conto original não-incluídos na versão publicada do conto]:


24/3/11

TRIBUTO A “EL-REI”
Amanda Reznor

O peixe morre pela boca.”
Ditado Popular


Prezado amigo Carlos,


Remeto-lhe, conforme combinado, o trecho abaixo, retirado do caderno de memórias que encontraste, datado do século XVI e devidamente adaptado ao português corrente (como solicitado) para teu melhor entendimento.

Um abraço,
Sálvio Dunas




Diário de Willard Hussefeltsen

In Memorian
Hussefelt Vaandersen

Não poderia escrever esta primeira página sem lamentar minha perda recente. Meu querido pai, Hussefelt Vaandersen, veio a falecer temporada passada, deixando para trás seu filho querido e levando consigo sua esposa amada.


[...]





É por isso que hoje eu, Willard Hussefeltsen, assino aqui a trajetória do honorável Hussefelt Vaandersen, da magnífica Maria d’Almedina e da deslumbrante Yonah ben-Xaul, para que nossos descendentes não se esqueçam, nunca, de quem fomos nós.




P.S.: Não é interessante a tua descoberta, amigo Carlos Willardsen? Uma descoberta e tanto! Aguardarei teu retorno.




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 Gostou? As [reticências] indicam mais de cinco páginas de uma história rica e detalhada que se passa no Brasil colonial, e que ainda vem recheada de morte e sangue. 


Hmmm, que gostoso!



Aguarde o lançamento deste volume e dos outros pecados da coletânea VII Demônios.



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25/3/11 
AMANTE SUI GENERIS®
Amanda Reznor

“Quer pouco, terás tudo.

Quer nada: serás livre.

O mesmo amor que tenham

por nós, quer-nos, oprime-nos.”

Fernando Pessoa

 - Elas invejam o meu amante perfeito.

Linda acende mais um cigarro. É o décimo do dia – são dez da manhã. Através da cortina semicerrada o céu exibe sua tez acinzentada e pouco convidativa.

- Você fuma dentro de casa?

Linda sopra a fumaça lentamente para o teto, deixa o cigarro pendurado entre dois dedos e sorri para Cindy, sem responder à pergunta.

- Bom, deixa pra lá. Mas isso foi tudo o que a Salete disse, “elas invejam o meu amante perfeito”?

Mais uma tragada.

- Sim, foi tudo o que ela disse. O policial ficou... Acho que a palavra não é chocado, é...

- Intrigado?

- ... pode ser.

O apartamento tipo quitinete¹ começou a ficar abafado, um tanto enevoado. Cindy está incomodada.

- Será que podemos ficar no corredor? Essa fumaça realmente me dá enxaqueca...

Linda sorri novamente, sarcástica. Ela tem olhos verdes, lindos olhos verdes, como o nome dela. Olhos de gato. Ela parece felina.

- Olha... Cinthia, né?

- É, Cindy é apelido...

A felina abre a primeira gaveta de uma escrivaninha de madeira clara, encaixada num vão mínimo sob a única janela do cômodo.

- Então, Cinthia, leva isso com você. Acho que é tudo...

Cindy recebe um envelope pardo e é sutilmente empurrada até a porta.

- Certo, então...

A porta bate.

- ... até mais.

O elevador do prédio é antropofóbico – escuro, apertado, sufocante. Seria melhor Cindy ter descido os dois lances de escada.


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01/6/11

A CONDENAÇÃO DE LILITH
Amanda Reznor

A fome dos outros condena a
civilização dos que não têm fome.”
Dom Hélder Câmara


I – A CRIAÇÃO DA HUMANIDADE


“Reuni-vos, irmãos!” Assim saudou Lúcifer seus anjos degradados, irmãos de espécie e de ideais, que depois de expulsos do Paraíso foram viver às margens terrenas, no Limbo. Os ares da mudança afetavam o ambiente, e os anjos caídos, imersos em curiosidade, rumoravam qual seria a anunciação de seu ardoroso líder.
- Estais aqui para ouvirdes de vosso haríolo os novos intentos do Criador!
E, de feições cruas e órbitas gananciosas, o Rei das Trevas narrou aos súditos por qual meio Deus intentava modelar uma parceira para Adão. Sim, Ele que fez o céu e a terra quando ainda não havia planta no solo, nem animais, solidão ou amor, e que em seguida criou Adão, o primeiro de todos os homo sapiens, e o plantou num jardim florido, aguado e avivado – o Éden, agora previa a necessidade de uma companheira para o homem.
Lúcifer, que creditava a si um poder maior que o Cosmos, adivinhou tal acontecimento, decidindo intervir no barro sagrado do Éden com excremento e farelos de sua própria carne para que, do solo modificado, nascesse uma criatura cuja vida o próprio Demônio houvesse incitado.
O plano engendrado por Lúcifer foi levado a ferro por seus súditos e, na forma de vermes, cada pedaço de terra do Éden foi infectado com o preparado humoroso dos degradados. Assim, quando Deus reuniu a matéria que incorporou Lilith, houve uma grande comemoração no Limbo de Lúcifer.
Lilith em nada poderia ser comparada a seu companheiro Adão. Era naturalmente mais vistosa, de olhar vivo e pele viçosa, logo angariando o carinho e a adoração de todos os animaizinhos do Éden, como uma rainha vaidosa e exuberante à qual se inverte em prazer a prosternação dos vassalos.
Mais primitivo e reservado, Adão não saberia lidar com a figura imponente e sedutora de Lilith. Toda tentativa de interação com a mulher era frustrada por aquele riso superior e orgulhoso que ela pintava no rosto ao descobrir o acabrunhamento do homem. Deus, ao longe, observava (insatisfeito) a interação de seu jovem casal.
Com o decorrer dos dias, Lúcifer festejava junto aos rebelados o mérito de haver açulado em Lilith um humano superior ao projetado por Deus:
- Reparai, irmãos, como é mais jeitosa e sagaz, sabe conversar com os pássaros e com as cobras, domina o coelho e faz calar o leão, como é desobediente e maleficamente divina, a nossa Lilith!
Chega o dia, porém, em que Adão sente a necessidade da procriação, indo novamente ter com Lilith. Esta se recusa terminantemente a submeter-se ao homem, e vai reclamar a Deus:
- Ó, pai, por que haveria eu de vitimar-me sob Adão, aquele ser inferior?
E o Pai, que em nada aprovava a atitude egocêntrica de Lilith, num acesso de raiva expulsou-a do Paraíso para não mais tornar. Este foi o clímax da ascensão de Lúcifer, cujo plano muito além da criação da mulher se estendia. O Portador da Luz ordenou aos degradados o resgate de sua pseudocria, e Lilith foi acolhida com grande júbilo na Ilha do Limbus, onde ficou encerrada.
Quando Deus anunciou o nascimento de outra parceira para Adão, Eva, Lúcifer ordenou a Lilith que gerasse a prole de todos os anjos caídos, reunindo as súcubas e os íncubos que dominariam a descendência de Adão e Eva, fazendo prevalecer o poderio de Lúcifer e seu exército sobre o Reinado de Deus. Teimosa e vingativa, Lilith aquiesceu de bom grado às vontades de seu Mestre. Escravizada pelas épocas, porém, ela aos poucos percebeu que estaria condenada à sua proliferação eterna pelo mundo.

II – A HUMANIDADE

Rede metropolitana. Uma senhora deixa uma nota cair do bolso. O homem que vinha atrás pega a nota e a guarda no seu colete. Uma garotinha chora numa esquina deserta. Suas roupas estão rasgadas, a calça ensanguentada, a mãe encobriu o padrasto e a expulsou de casa, e ela não tem para onde ir. Um cãozinho vira-lata aguarda restos de comida de um bondoso servente de um restaurante. O servente aparece para jogar fora alguns sacos de lixo e deixa uma tigela com alimento velho para o cão. Vem um mendigo, agarra a tigela e o cão o ataca. O mendigo dá uma porretada no cão e come a sua comida – e depois come o cão também. Outro homem, não muito longe dali, arrasta uma prostituta para um beco. Tira a navalha do cinto e perfura a moça o quanto pode, enquanto a estupra. Suas pernas vibram de prazer. Terremoto. Tsunami. Uma nação em frangalhos. Pelos cinco continentes, curiosos acompanham o desastre repassado pelas emissoras televisivas. Logo em seguida, alguns deles voltam a jantar, almoçar ou lanchar; outros retomam a piada interrompida pelo noticiário; outros voltam a ralhar com seus filhos desobedientes; alguns apenas continuam a judiar de seus animais domésticos e outros nem chegaram a tomar conhecimento do fato. Nenhum dos telespectadores, entretanto, volta a pensar nos incidentes (ou nas pessoas que foram abatidas por um desastre atrás do outro) ao colocar a cabeça sobre o travesseiro e cair num sono profundo e babado.
E enquanto todos dormem, ela vem.
O ódio cintila em suas íris licorosas, os longos cabelos negros chocam-se e gritam, como se feitos de vidro, tilintando uma melancolia mortal. Ela sofre num vagar incessante, buscando sua vingança. Ela procura pelos insones. Ela se infiltra entre os casais que se amam pela madrugada.Ela chora sobre os bebês para que se tornem inférteis.
Por isso, dê graças à tua sorte se, quando ela passar, tu estiveres apenas roncando – pois nenhum ser vivo sobrevive àquele som hipnótico e triste dos longos fios de cabelo se embaralhando.
Se estiveres deitado e não vier o sono (e ficares de ouvidos atentos aos carros, sirenes e latidos) e se ela estiver por perto, aproximar-se-á do teu leito com sua melodia suave, e, num primeiro momento, embalará teus miolos numa vibração que te enlouquecerás, fervendo a massa encefálica com notas e falsetes ritmados pelo diabo; se ousares abrir teus olhos, tua retina queimará com a mais leve luminescência azulada emitida por aquela pele que nunca foi bronzeada; em seguida ela, com duas mãos esguias e geladas, estrangular-te-á o tórax num aperto horroroso, rompendo teu miocárdio com a força de uma única pressão...
O pior castigo, porém, é reservado aos amantes: ela entrará na cabeça do homem, através dos tímpanos, e regerá sua orquestra diabólica no cerebelo, centro das coordenações motoras, fazendo com que o corpo descontrolado do homem imprima uma força brutal sobre a parceira, matando-a no decorrer desesperado de um infindável sangramento interno, e finalizando o parceiro com uma bela “fritura cerebral”.
Mas, se estiveres felizmente dormindo, continue. Sofrerás, apenas, o desconforto de teus piores pesadelos, tu que és homem, tu que és casada – pois Lilith tem aversão a todos os homens e inveja a felicidade conjugal. Se quiserdes proteger vossos bebês e filhos da esterilidade, coloquem-nos para dormir em quarto separado do vosso, uma vez que a inocência, maior virtude das crianças e que as protege da fúria lilithiana, é maculada no leito daqueles que dormirem ao lado dos pais.

III – A DISPUTA

Um slide com a projeção de uma usina nuclear destruída paira na parede de uma sala na qual é realizada uma reunião solene. Os presentes aguardam que Ele erga o indicador aos lábios para quedarem em obediente silêncio. O Senhor fala:
- Sei bem que nenhum de vós é responsável por tal atrocidade...
- E tampouco sois Vós, Senhor – retruca respeitosamente um dos membros.
O Senhor torna um olhar preocupado na direção do interlocutor, concordando:
- Tampouco Eu, é claro...
Nesse instante, a reunião de anjos e do Senhor é interrompida por uma chamada de vídeo. Um dos auxiliares se aproxima do Senhor para avisar:
- É de Lá! Devo reproduzir a mensagem pelo projetor?
- Sim, sim, por favor – confirma Ele.
Uma videomensagem ocupa o espaço anterior da usina nuclear, exibindo cenas aleatórias de um satélite focado sobre a Terra. Pessoas mortas, animais, fogo, água, terra e ar se intercalam nas imagens enviadas. Uma Voz sonora e metálica ecoa por sobre a cabeça do Senhor e dos anjos, que se põem a ouvir calmamente, como se aquilo não fosse novidade.
“Saudações, Infelizes! Satisfazei-Vos com as destruições recentes?”
Apenas o Senhor responde ao chamado, em pé diante das fotos projetadas. Ele lastimava aquelas mortes, que significavam a perda de tantos dos seus para o outro lado. Contudo, não demonstraria fraqueza. Pensando nos últimos desastres que assolaram a Terra, o Senhor respondeu:
- Então foste Tu, novamente. Já esperávamos. Conseguiste, ao menos, decifrar a última mensagem.
“Decifrar?” Zombou a voz grave. “Eu sempre o soube... Ou já esqueceis a amplitude de meus poderes, Vós que Vos enclausurastes no terraço do mais alto arranha-céu, Vós que demandais de aparelhos eletrônicos para comunicar-Vos?”
Sim, o Senhor e Seus anjos estão reunidos em uma sala mobiliada, no último andar de um edifício tão alto que nem os humanos com seus aviões e helicópteros são capazes de avistar. E Ele continuou, ignorando a provocação que veio Do Outro Lado da linha:
- Então já Sabeis onde ela está?
Um riso abafado. “Perguntas-Me onde ela está? Já não o sabes, como todo poderoso que És?”
O Senhor começa a perder a paciência.
- Não Me rebaixe com insultos tolos! Lilith é uma condenada e jamais escapará à sua sina, por mais que se oculte sob a terra!
“Então não Sabes onde ela está.”
Mais uma vez ignorando a ofensa, Ele prossegue:
- Votemos ao enigma. Vens a Mim com todas essas cenas de calamidade. Acaso não seria esta a prova, então, de que Vens metodicamente seguindo os Meus conselhos?
Pela primeira vez a Voz, que até então ressoava sarcasticamente calma, alterou-se e assustou alguns dos anjos presentes no salão, que deram pulinhos na direção oposto à dos alto-falantes.
Nunca segui quaisquer dos Teus conselhos, Infeliz!”
“Ponha-Te no Teu devido lugar!”
O Senhor riu baixinho, para Si próprio, intimamente satisfeito por haver conseguido irritar o Oponente. E caçoou com segurança:
- Nunca? Mas não é o que parece. Que significam, então, estas imagens terrenas? Acaso não Intentas elucidar a Minha tese?
Esta é a mais recente das teses Dele à respeito da desordem mundial:
A crucificação de Cristo é a prova de que, enquanto Deus for bom para os homens, eles não O respeitarão.
Se a tese houver surtido efeito Do Outro Lado, os desastres recentes se encaixarão como luva, explicando as punições sofridas pelo planeta azul.
“Qual? Aquela da crucificação de Cristo?”
- Essa mesma!
Por um breve momento, o Senhor e seus anjos se deram por satisfeitos, acreditando que Seu plano inicial havia, finalmente, alcançado maiores proporções. Frente a este mal entendido, porém, as caixas acústicas sufocaram um riso estrondoso.
“Entendeis errado, Todos Vós!”
“Vejo que tenho superestimado Meus próprios Filhos...”
Irritado não só por perceber-se Enganado, como também pelo teor carinhoso da última frase, o Senhor explode.
- Nós não Somos Teus Filhos! – rebela-se prontamente Lúcifer, em sua cólera.
“E tu nunca serás Deus!”

IV – A ELIMINAÇÃO

Mikhael Arkhangelus observa atentamente uma maquete perfeita da realidade: casas, prédios, mares, lombadas, nuvens... Ah, perdão, não é uma maquete. Ele vigia o mundo. Mas é que assim, tão distante, o mundo parece apenas uma perfeita maquete desenhada em relevo sobre uma bolinha de isopor... Não é, Mikhael?
- Sim?
- O mundo não parece de brinquedo, visto aqui de cima?
Ele não me responde. Não é afeito a brincadeiras, mas eu... Bem, não deixo de tentar. Qual é a nossa próxima missão?
- É a minha próxima missão, Keruvim.
Pois bem. Como eu disse, eu tento. Mas Mikhael não cede. Nem às brincadeiras e nem à minha curiosidade. É que Deus não revela Seus planos a todas as criaturas do Céu. Apenas o anjo Mikhael recebeu esse direito, após ter expulsado Lúcifer do Palácio Celestial.
E foi desde então que Lúcifer veio arquitetando a tomada do Trono. Seu maior plano foi a expansão de súcubos e íncubos, respectivamente as filhas e filhos de Lilith, metade humanos, metade demônios. Lúcifer acreditou que a proliferação dos mestiços espalharia a semente da maldade no coração dos humanos, e assim a chance de dominar o planeta – e por conseguinte o Reino dos Céus – seria maior. Mas isso não é segredo para nós.
A batalha entre o céu e a terra (e não entre o céu e o inferno, como pensam alguns) começou depois do nascimento dos herdeiros do Éden. Os mestiços de tal forma se misturaram aos filhos de Adão & Eva que ficou praticamente impossível distinguir a maldade de um ou de outro. Os homens bons existem em número tão reduzido que é difícil saber se foi a maioria dos humanos que acabou se miscigenando à genética demoníaca ou se os homens realmente carregam a maldade arrancada do Fruto Proibido consigo.
O que pouco compreendo nesse cenário é a missão de Mikhael, há multilênios sobrevoando cada pedaço da Terra em cumprimento das Ordens Divinas. Jamais revela a mim o porquê nem o quê, exatamente, é designado a cumprir, mesmo eu estando sempre a postos ao seu lado, firme no meu dever de inibir qualquer tentativa de invasão dos Infelizes (Lúcifer e seus degradados).
Mikhael estaciona repentinamente sua atenção sobre o Brasil. Está tudo calmo lá embaixo... Espera! Mikhael, esta não é a única região que nós ainda não...?
Ele me faz calar com um olhar de aviso. Não gosta que eu use “nós”. Não há “nós”. Mikhael está sozinho em sua missão. Erguendo o indicador, ele começa a fazer voltas em círculos, como já o vi fazer muitas vezes antes, provocando um deslocamento de ar que atravessa exo, termo, meso, estrato e troposfera, e, com uma inclinação perfeita que sua inteligência angelical lhe propôs definir, a massa aérea atinge a superfície do oceano Atlântico, provocando uma leve ondulação.
Mikhael pode não revelar sua missão, mas eu estou ao seu lado há uma eternidade, observando. Desde que Lilith sumiu, ferindo a superbia de Lúcifer, os desastres ficaram piores. Sim, ela conseguiu escapar da Ilha do Limbus, e Lúcifer nunca mais pôde encontrá-la. E aí Mikhael foi colocado a postos numa missão sem fim. Sempre rodeando o mundo, ou o “sujimundo”, neologismo ideal para a encarnação da tristeza de Deus – o mundo perfeito que elaborara em sete dias arruinado por tantas pragas e maldições.
Cabe a nós, herdeiros dos Céus, arkhanjos e keruvins sob o comando de Deus, a tentativa de recuperação do plano divino anterior, do mundo limpo. Lúcifer continua rindo, relaxado em sua poltrona de couro, acreditando que venceu. Ele, que se acha tão perspicaz, se esqueceu do princípio mais básico do Universo – de que Aquele que dá a vida também é capaz de retirá-la – tão simples e facilmente, o que veio pode ir embora pelas mãos Dele.
Sendo assim, você me pergunta: “Por que Deus já não baniu Lúcifer da face da Terra?”. Bem, primeiramente, na natureza nada se cria, nada se perde: tudo se transforma. Até aí, Lúcifer poderia ter sido transformado em cometa ou numa estrelinha pisca-pisca, não é mesmo? Mas ocorre que, em segundo lugar, Lúcifer não deixa de ser parte da Família – mesmo que seja a ovelha negra. Por isso Ele, em sua infinitesimal e paciente bondade, permite as reinações do demoniozinho como se permitiria a um filho malcriado que fizesse o que bem entendesse depois de atingida a maioridade, posto que acertará suas contas com Deus mais à frente – um castigo prometido, porém não esquecido, como pensam alguns.
No ademais, o que posso lhe revelar agora é: não se incomode com Lúcifer e seus amiguinhos. Eles são parte do microcosmos, enquanto o Pai é o Cosmos por si só. Vê bem que Lúcifer é a micose em Seu dedinho, e que Deus apenas protela a amputação de sua carne à espera que haja uma cura milagrosa para a doença, antes mesmo que seja preciso desfazer-se do membro doente. Destarte, na recuperação do Paraíso o problema menor, a meu ver, será encontrar Lilith e a origem do mal, uma vez que ela está em todas as partes...
Mas eu aqui falando e perdendo o espetáculo!
A pequena ondulação embutida por Mikhael acordou o oceano. E o que apenas ondulava agora anda, é uma onda que avança, alavanca e se vai, partindo para o continente sulamericano...
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*Todo e qualquer texto que aqui vier a ser publicado está devidamente protegido por direitos autorais*

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