quinta-feira, 11 de maio de 2017

✮ Contos da Autópsia de 11/05 - Criador de Mundos ✮

Hoje, quinta-feira dia 11, teremos a Autópsia dos contos de Amanda Reznor e Oscar Nestarez no programa Criador de Mundos!

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Seguem os contos que serão analisados ao vivo!

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RENASCER (Amanda Reznor, 2004)
 
Não, não há mais razão para continuar neste mundo. A dor... Um turbilhão invadia seu ser com fortes trancos de agonia e inconformidade. Os sentimentos fundiam, confusos. As lágrimas brotavam intermitentemente... Por quê? Por que, meu Deus, seria necessário passar por isso tudo?
Por ela não, ela pouco se incomodaria com sofrer, desde que fosse sozinha... Mas assistir àquele show horripilante, sentir a carne esfacelada roçando a sua... Por quê?
O corpo ia se contorcendo, manchando-se com o sangue puro, o vermelho vívido, limpo, abundante, ainda não afetado pelo processo de coagulação.
Fechava os olhos para não ver, não queria ver, aquela imagem fixada na mente, horrível, horrível, mas o líquido espesso ardia dentro dos olhos, tudo estava rubro...
Duas pessoas, dois anjos; caíram, morreram ao tocar o chão. Morreram ao nascer, ao chocarem com a prolixa existência destinada aos seres... Morreram pelas mãos de outrem.
E eram tão lindos, tão apaixonantes... A figura destroçada dos dois, inertes, não era apenas morte, é hórrido! Os rostos destroçados, um olho azul ainda reluzindo...
Ela quis sair dali correndo, um chuveiro, por favor, não posso me sujar com este sangue! Não, ele é limpo, é abençoado demais para mim, por favor, alguém?
Mas estava deserto e calmo; grilinhos cricrilando alegremente, nunca poderiam imaginar um terror daqueles.
Queria ser um grilo, quero ser aquela barata... Os olhos acompanharam a barata que se aproximava. E a barata subiu numa perna ensanguentada. Deixou. Não era capaz de se mover. O trauma ainda a paralisava, tudo muito recente.
Lembranças, miragens, frases cortadas, vozes ecoando em sua mente... Eu não deveria ter avisado que estaríamos ali... Por que concordei em avisar, por que fez aquele pacto? Isso nem ela sabia. Ao menos, era o que menos sentido fazia para ela agora. Ela, que não sabia da história, mas que concordou em participar de tudo. E fora traída. Usada. Bem-feito! Meteu-se onde não devia. Foi má. Estou pagando, eu sei! Eu mereço isso, mereço pior... Mas eles, eles não, por que eles tinham que... Ah! Desatou em soluços profundos.
Mexeu os pés, doeu à beça. Sentiu que uma hora passara, na verdade só haviam passado vinte minutos. Mas era o que ela pressentia. E a consciência remoendo seus miolos. E a dor, não a dor física, mas a dor psíquica, a dor horrenda do arrependimento... Não tem como voltar atrás.
Por um instante ela vislumbrou uma fonte de luz. Estava mais claro. Ela, num quarto semi-iluminado. Entardecer, nenhuma lâmpada acesa. Um choro. Melhor, dois. A casa estava vazia há anos. Levara-os até ali, e agora estava aguardando. O telefone toca. Sim, tudo ocorreu conforme o plano, eu já estou aqui.
De repente, um estalo. Ela não dá muita atenção. Colocá-los no quarto de cima, tudo bem, pode deixar.
Subiu, um cesto largo na mão, o choro prolongando-se. Que merda de choro irritante!
Tudo enegrece novamente... Virou os olhos para baixo, à direita. Preferia que eles estivessem chorando, agora. Que gritassem, seria melhor! Mas estavam ali, quietos... Emudecidos para sempre.
E lá os três corpos permaneceram, impossibilitada a distinção daquele vivo entre os mortos.
Amanhece.  Ela resolvera não sair dali. Estava pagando. Nunca atrasara suas contas. E, ironicamente, não foi o que a levou até ali? O dinheiro curto, topo qualquer parada! Topou. Mas não imaginava que os rendimentos se tornariam tão pequenos perante o débito.
Não quis nem fazer alusões à origem do serviço, só concordou em participar. E preferia nem fazê-las agora...
Só aumentaria o sofrimento. E a conta já estava alta, era melhor terminar logo ou a dívida se estenderia ao inferno! Não aguentava mais.
Os olhos ressecados, ardendo de sono. Não cerraram a noite inteira... Ela cedeu. Um pesadelo após o outro. Um monstro negro, carrancudo, dedos curvados, pontiagudos...
Alguém se aproxima do local. Há um bocado de mato em volta.
Tocaram seu corpo, mas ela não mais se moveu.
 


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Comigo (Oscar Nestarez, 2001)

 

Vamos, só mais um pouco.

 

Continue caminhando. Falta pouco. É logo ali, à beira daquele penhasco. Mais alguns passos... Pronto.

 

Agora olhe lá longe.

Siga meu dedo. No horizonte, perto daquelas montanhas distantes. Vê? Depois dessa planície imensa, embaixo da gente. Já vem vindo. É, é aquela nuvem escura.

Você está bem?

Chega mais perto, então. Logo vai ficar muito frio.

Não, não são berros. Nem uivos. Parecem, mas não são. Tente acreditar que não.

 

Tente não ouvir.

 

Tente abrir mão da audição, pelo menos agora. Você não vai precisar dela.

O que há para se ouvir não é nada agradável.

Sim, o vento é gelado. Abrace-me, estou acostumado.

 

Você treme. É só de frio, não? O medo não seria boa companhia aqui.

Calma, logo vem.

Vê? A nuvem está próxima. Engolindo tudo o que encobre.  

Nem tente enxergar. Você vai ver quando for a hora. Há muito a ser visto. Não é por isso que você está aqui? Não é por isso que você pediu que eu te trouxesse aqui? Tudo no seu tempo.

 

Aproveite a vista. Pelo menos aquela que a nuvem está poupando.

Não, não são uivos. Nem lamentos. Imagine que é o vento, passeando e provocando. Não responda.

Vai ficar cada vez mais alto. Já disse para você esquecer de ouvir.

 

Tudo o que você precisa ouvir é a minha voz.

Grave, monocórdia e sussurrante.

O resto é silêncio.

 

Já está aí. Sim, é muito frio.

Agarre-se a mim. Por um instante, você não vai ver nem ouvir. Só vai sentir.

Eu serei tudo o que você terá.

Minha voz, tudo o que você ouvirá.

Meu corpo, tudo o que sentirá.

 

Agora.

 

Você continua ouvindo os lamentos. Os uivos, os berros, que seja.

Esqueça-os.

Ou os uivos vão ganhar bocas. As bocas vão ganhar rostos. Os rostos, corpos. Os corpos, membros. 
E, acredite, você não quer ver nada disso.

Eu não quis.

 

Há quanto tempo venho aqui?

Desde sempre.

 

Mas “aqui” foi se transformando.

Não me lembro de quando descobri este lugar, mas lembro-me das primeiras vezes em que vim.

Sozinho.

Eu chegava à beira do penhasco, e a visão era deslumbrante.

Nunca tinha visto nada igual. Paisagem de sonho. Indescritível.

Montanhas distantes e protetoras. Vales verdes e indolentes. Estradas misteriosas de rumo remoto. Bosques mágicos e intocados.

 

Eu vinha para cá sempre que podia.

Queria descobrir tudo.

Ver tudo.

Antes, chegava e me saciava a olhar.

Ficava sentado à beira do penhasco, admirando, encantado.

Aos poucos veio a coragem.

Até que uma vez, sem hesitar, tomei impulso e me lancei ao abismo.

Pouco antes de pousar na planície, um pé-de-vento me pegou no colo.

E, aninhado, eu flutuei.

Fazia frio, mas o colo aquecia-me.

 

Você está me ouvindo?

Chegue mais perto.

Ouça só a minha voz.

 

Primeiro eu circulei pela vasta planície, penteando a relva e saudando a vida que se escondia ali.

O vento então me carregou para os bosques. Lá entrei e passeei languidamente, por longas horas.

E saí com visões que me acompanharão para sempre.

Depois dos bosques, fui a pradarias, montes, vales, cabanas remotas, estradas escondidas, charnecas, ermos e redenção.

 

Já disse para esquecer os uivos! Eles podem te enlouquecer!

 

Às vezes o vento me erguia. Eu quase tocava o zênite.

Logo depois, eu mergulhava.

O frio na barriga e os sentidos aguçados me deixavam extasiado.

 

Então, eu sempre voltava e repetia o ritual.

Atirava-me ao vazio, era apanhado pelo vento e planava.

Assim foi durante milhares de vezes.

Era tudo o que eu queria.

O concílio de meus desejos mais profundos.

A minha fuga.

Ainda é, hoje.

 

Mas como eu disse, as coisas mudaram.

Nunca deixei de vir pra cá.

De fugir daquele mundo para mergulhar neste.

Vai ver foi por isso que não percebi a nuvem.

 

Sim. A nuvem negra. Esta que nos rodeia.

 

A primeira vez que a vi, era como a fumaça de uma cabana distante.

Um mero detalhe do meu horizonte místico.

 

Mas ela foi chegando. Lenta e imperceptivelmente.

“Uma tempestade”, passei a pensar. “Faz sentido”.

Indiferente, eu continuava flutuando pelo meu mundo. Que diminuía.

A sombra da nuvem o devorava placidamente. E expandia seus limites, que eu não ousava ultrapassar.

 

Isso ocorreu durante anos.

Até que resolvi avançar na nuvem.

Lembro-me como se fosse hoje.

Atirei-me ao vazio.

Eu sentia muito medo, estava agitado. Não dissimulava, pois até então econtrava-me no meu elemento.

O vento me apanhou e rumamos triunfantes.

 

Aos poucos, chegam os uivos.

A nuvem está no horizonte, perto das montanhas.

Imóvel. Desafiadora.

O frio é cada vez mais intenso.

Os lamentos também.

Comecei a sussurrar para me proteger deles.

Que não cessavam. Aumentavam.

A nuvem estava à minha frente.

Não havia volta.

Num rompante de loucura, atirei-me nela.

Nas trevas, o vento me abandonou.

Era o último fragmento do meu mundo, ali.

Então caí uma queda sem fim.

 
O pavor me dominou. E, como lhe disse, deu boca aos uivos, rosto à boca, corpo ao rosto e membros ao corpo.

Bocas carnívoras, rostos alucinantes, corpos disformes e membros brutais.

Eu caía a uma velocidade incrível, mas podia distinguir tudo.

Os uivos agora eram ensurdecedores.

A dor das mordidas, lancinante.

O horror, interminável.

E tudo ecoando. Tudo se repetindo. Intermináveis vezes.

 

Como agora.

Não me solte.

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